“Tive o meu primeiro orgasmo com um vibrador e não com meu marido”


A pandemia forçou muitas pessoas a olharem para os problemas conjugais. E com a empresária Marcia*, de 53 anos, não foi diferente. Ela descobriu o prazer com o vibrador, mesmo estando casada há 33 anos. Além de orgasmos, ganhou um novo olhar sobre a própria vida. Confira a história:


"Estou casada há 33 anos com Paulo* e o nosso sexo sempre foi o dos mais tradicionais: a maior parte das vezes a posição papai-mamãe, ele gozando e fim. Nunca entendi se algum dia eu havia chegado ao orgasmo ou não. Sempre tive minhas dúvidas e nunca me senti realizada na cama. Mas eu tinha 16 anos quando o conheci, hoje tenho 53. Ele foi meu primeiro namorado e único homem. A minha experiência sexual sempre foi limitada a ele. Sem filhos, nos habituamos a trabalhar muito. Tenho uma loja de roupas aqui em São Paulo e ele é contador. A nossa rotina sempre foi nos despedirmos após o café da manhã para cada um seguir no seu ofício e à noite nos encontrarmos em casa para jantarmos, assistirmos um pouco de TV e dormir.


Ao longo dos anos, o sono e cansaço foram ocupando o espaço do sexo e hoje não temos mais uma rotina sexual. Transamos bem pouco. Uma vez a cada dois meses e olhe lá. Esse lado negativo do nosso casamento eu nunca quis mexer e deixava embaixo do tapete porque, afinal de contas, construímos uma casa, conseguimos pagar as nossas contas e temos uma relação estável. Nos acostumamos um com o outro.

Até que chegou a pandemia e tudo mudou, ou melhor, eu mudei. Descobri o prazer, mas infelizmente não foi com o Paulo. Com a rotina completamente diferente - fechei a loja o ano passado, reabri somente agora, e ele aderiu ao home office - o convívio se tornou as 24h e as nossas picuinhas diárias aumentaram. Além da irritação e troca de farpas, comecei a olhar para a minha sexualidade. Algo que até então nunca tinha explorado. Minhas amigas do Whatsapp começaram a falar do sugador de clitóris. Nunca tive um vibrador na vida. Imagina chegar aqui em casa com um aparelho daqueles. Todas elas estavam adorando a experiência, mas optei por começar a ler mais o assunto na internet: orgasmo, vibrador, lubrificante. E um mundo se abriu para mim. Foi só ali que eu percebi que nunca tinha gozado e a minha vida sexual não precisava ser tão ruim assim, né!


Sempre me cuidei com rotina de beleza e exercícios, mas a parte sexual estava morta dentro de mim. Bom, mesmo com aquelas informações e as minhas amigas insistindo para eu comprar o aparelho, ainda não tinha coragem para atravessar essa fronteira. Até que, no começo de dezembro, eu e o Paulo tivemos uma briga feia e decidi me vingar comprando um vibrador de Natal para mim. Dias depois a encomenda chegou e ele riu da minha cara, dizendo que aquilo era um absurdo e eu estava jogando meu dinheiro no ralo. Fiquei triste com aquele comentário porque ele realmente não tinha ideia do quanto eu era infeliz na cama. Deixei o sugador guardado na minha mesinha ao lado da cama por uns dias.


Até que uma noite tentei uma interação mais “caliente” com ele e nem “tchum” pra mim. Virou e roncou. Aquilo foi a gota d’água. Abri a gaveta, peguei o manual de instrução e finalmente liguei meu presente. Fiquei com medo do Paulo acordar porque um barulhinho sempre tem, né, embora seja silencioso. Coloquei o vibra entre as minhas pernas embaixo do lençol e comecei a sentir as sensações. Menina! O que foi aquilo! Pegou meu clitóris (agora eu sei onde fica!) de jeito e eu soltei até um gritinho mas o Paulo não acordou. Tive o meu primeiro orgasmo com um vibrador e não com meu marido. Ele estava dormindo ao lado. Pronto, virei a chavinha na minha cabeça e comecei a me masturbar no banho, a não ligar quando ele não queria transar, a me sentir mais bonita.


Comprei lubrificante e outros vibradores também. Uso com uma certa discrição só para ele não começar a cismar com meus toys, mas agora são meus melhores amigos. Uso sempre todos eles e não gosto de falar que sou viciada nos vibradores porque parece uma conotação negativa. Gosto de falar que o vibrador me trouxe de volta à vida. Hoje eu sei o que é gozar. A pandemia trouxe esse lado positivo para mim pois me descobri como mulher, gozei a primeira vez aos 52 anos.


Mas, por outro lado, tive que olhar de frente para o meu casamento e ver o quanto eu sou infeliz. O próximo passo, mais decisivo, em relação a isso não sei se conseguirei dar porque são muitos anos juntos. Mas a etapa de me conhecer...ah essa eu avancei e não volto nunca mais! Viva os vibradores!


* Os nomes foram trocados para proteger a identidade real dos personagens.


Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.