Novos tempos para o amor e a solteirice
- lucianeangelo
- 26 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
O amor moderno é menos sobre precisar e mais sobre querer. Alguns novos rumos dos relacionamentos.

Por muito tempo, a narrativa dominante dizia que “felizes para sempre” significava casar, dividir a vida e construir uma família. O acesso à contracepção, a independência econômica crescente, especialmente para mulheres, e a mudança nos valores sociais abriram espaço para algo diferente: a possibilidade real de permanecer solteiro ou adiar a união sem que isso seja necessariamente considerado um fracasso.
Esse fenômeno, o surgimento de uma geração em que muitos não se associam (ou adiam) relacionamentos longos, gera tanto possibilidades quanto desafios para a vida a dois (ou para a vida sem “o outro”). A seguir, analiso alguns contornos dessa nova paisagem do relacionamento:
Pontos positivos:
Maior autonomia pessoal: À medida que as mulheres obtêm mais oportunidades de estudo, emprego e independência financeira, tornaram-se menos pressionadas a entrar ou permanecer em relacionamentos insatisfatórios. Isso significa que um relacionamento estável passa a exigir para ambos mais do que simplesmente casar: pressupõe parceria, compatibilidade, colaboração. Elevação dos padrões: Quando as opções aumentam, cresce também a exigência. Muitos não querem mais “qualquer parceria", mas algo que faça sentido, que agregue. Isso pode levar a menos “aceitação de mediocridade” nas relações, o que é positivo, na medida em que evita insatisfação, mas também pode gerar indecisão ou frustração. Mudanças na dinâmica de gênero: A mulher que já não necessita de um parceiro para garantir sua subsistência altera a equação do “ser parceiro” o que se espera, e o que cada um aporta, está mudando. Esse redesenho pode favorecer relações mais equilibradas, em que ambos participam da vida doméstica, emocional e econômica.
Pontos negativos:
Solidão e desejo de conexão: Mesmo com liberdade de escolha, pesquisas indicam que uma boa parcela das pessoas solteiras preferiria estar em uma relação. A solidão, ou o sentimento de estar “à margem” dos pares, ainda pesa. Valorize sua rede de amigos, comunidade e vínculos porque o complemento afetivo nem sempre precisará (ou poderá) vir de um parceiro romântico. Cultivar intimidade plural ajuda a não depositar toda a “felicidade” do relacionamento em uma pessoa só. Expectativas elevadas + mercado desigual de parceiros: Um efeito colateral da autonomia é que as expectativas para o “par ideal” aumentam, enquanto nem sempre todos os candidatos nas plataformas de encontros ou na vida real se ajustam a essas expectativas. Reflita sobre o que você realmente considera “essencial” num parceiro e o que são “extras desejáveis”. Diferenciar o que é inegociável do que é negociável evita bloqueios desnecessários. Pressões sociais e demográficas: O aumento da solteirice mudou não apenas o âmbito pessoal, mas também social: casas menores, mais pessoas vivendo sozinhas, implicações para políticas públicas etc. Em termos de relacionamento, isso significa que o “modelo padrão” de casal + casa + filhos não é mais a regra dominante e entender isso evita frustrações em relação ao “deveria ser”.
Estamos vivendo uma época de transição nas relações humanas em que a solteirice deixou de ser exceção e se tornou parte visível do cotidiano. Mas longe de isso significar apenas isolamento, a ascensão da solteirice pode ser vista como uma oportunidade: de exigir mais de parcerias, de viver de forma autônoma e de construir relações com mais consciência.
Para quem busca um relacionamento ou para quem está em um a chave é adaptação: entender que o “como” mudou, que o “por que” (companheirismo, afeto, suporte mútuo) continua relevante, e que a escolha de estar ou não pode ser feita com menos pressão e mais autenticidade. *Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.



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