Já ouviu falar sobre F.O.D.A. (Fear of Dating Again)?


As relações se transformam durante a pandemia e a necessidade de conexão aumenta entre os matchs.



No pré-pandemia, as pessoas, no geral, vivenciavam o chamado F.O.M.O. (Fear of Missing Out), ou seja, o medo de estar perdendo algo, novos amores, novas experiências, novos encontros e essa sigla era um sério complicador para os chamados relacionamentos estáveis e monogâmicos. Na pandemia, esse medo e ansiedade foram transferidos para as notícias e a necessidade de estar em constante produção, não sentir perder tempo em casa “fazendo nada”. Com o excesso de F.O.M.O. vivido na quarentena, começou a surgir um movimento contrário, o J.O.M.O. (Joy of Missing Out). Sim, a alegria de “estar perdendo” as últimas notícias, os novos cursos de línguas, as Lives e as novidades tecnológicas. É o viver seu mundo, sem saber sobre a dura realidade e isso trazer uma sensação de proteção. Desacelerar o tempo para te trazer bem-estar.

Paralelamente a esses comportamentos distintos, surge o F.O.D.A. (Fear of Dating Again - o medo de se relacionar novamente). Confinadas, as pessoas reinventaram suas relações de forma mais virtual e distante, os desejos foram colocados em cheque, um novo olhar para o outro começou a ser despertado. Se, antes da pandemia, era somente dar um match e uma transa estava ali quase garantida, na pandemia não necessariamente você encontraria seu par. E novas técnicas de encontros e sedução começaram a surgir como aprimoramento de nudes, dates on-line, longas conversas no chat somente para matar a carência sexual e emocional. Não à toa, 2020, foi o ano mais movimentado para o Tinder. Cerca de 60% dos usuários acessaram o app porque se sentiam sozinhos e 40% porque queriam "ver" pessoas novas e diferentes. A distância física abriu caminho para “encontros” com pessoas de outros países. Segundo o Ok, Cupid! outro aplicativo de relacionamentos, 50% de seus usuários deram match além da fronteira. Eu mesma no meu momento F.O.M.O. voltei a estudar francês e me pluguei em Paris para praticar a língua. Já que a minha única alternativa eram encontros virtuais, por que não xavecar em francês, inglês? hehehe.

As pessoas, ao longo dos meses, começaram a desenvolver estratégias para tentar burlar a pandemia. Durante os longos chats, quase que uma investigação do perfil do pretendente são realizadas: “está trabalhando 100% em casa?”; “Mora sozinho?”; “O que faz nos finais de semana?”. Tentativas de checagem para ver se o sexo seria seguro com aquela pessoa. Mas claro que isso vai por água abaixo se o outro for desonesto. O meu primeiro encontro no meio da pandemia foi cheio de receios no início, com muito álcool em gel, troca de roupa, um certo distanciamento e medo de tocar o outro. Mas confesso: foi o abraço mais longo e delicioso de todos os tempos. Os encontros se tornaram um misto de realização do desejo reprimido com o medo que nos segue nesses tempos, aquela angústia dos dias seguintes de observar possíveis sintomas. Pra mim, a pessoa tem que valer muito à pena para eu sair da minha bolha pandêmica.

Alguns estudos revelam que, depois desse pesadelo passar, Calígula terá inveja das nossas “festinhas”. O chamado sexo casual, apenas uma transa, "tchau, até nunca mais”, voltará com tudo neste reinício social. Pois o desejo será extravasado de diversas formas. E a intenção será o simples gozo como expressão de prazer.

Já Logan Ury, diretora de ciência do relacionamento do centro de pesquisas Hinge, durante sua participação no último SXSW, tem uma outra teoria. Ela aposta na continuação do namoro por video, já que é uma forma segura e eficiente de avaliar a compatibilidade dos pares e isso ajudará as pessoas a terem um filtro mais apurado na hora de decidir quem elas desejam realmente conhecer pessoalmente. Sair da tela para o toque. Essa intimidade que, por incrível que apareça, o virtual trouxe para as relações neste último ano faz com que muitas pessoas conheçam melhor seu pretendente antes do cara a cara. Os benefícios no pós-pandemia para esses relacionamentos? Um sexo muito mais íntimo, prazeroso em todas as esferas, um toque mais completo, além de continuar deliciosas conversas mas, desta vez, abraçados dividindo uma taça de vinho a menos de um metro de distância.

No pós-pandemia, haverá diversos caminhos para um futuro de relações mais afetuosas, cautelosas preocupadas com o outro. Mas terá também aquela "liberdade sexual” sem freios e tão guardada no casulo nos últimos meses. Para qual time você quer entrar?


Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.