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Sexualidade x câncer de mama

há 10 minutos
3 min de leitura

No Outubro Rosa, não podemos deixar de olhar para os desafios da sexualidade enfrentados pela paciente oncológica.

Em 2023, tive um câncer de mama hormônio positivo. Fiz a retirada das duas mamas e iniciei o tratamento (duração de 5 anos) com um comprimido diário de Tamoxifeno, uma espécie de medicamento que bloqueia os receptores de estrogênio nas células da mama.


Mas, além de todo o baque, medo da morte, ansiedade e segurança, além de um trabalho intensivo com a autoestima, percebi que a minha vida sexual começou a encontrar desafios relacionados ao tratamento: secura vaginal, vaginoses por repetição, atrofia íntima.


Se eu que trabalho com sexualidade e tenho todo o conhecimento e rede de contatos da área médica próximos a mim, vivo essas dificuldades, imagina a mulher que já se encontrava afastada da própria sexualidade antes mesmo de se tornar paciente oncológica. Muitas mulheres sofrem caladas esses sintomas e desistem de soluções.


E estou aqui para dizer que é difícil sim ser uma paciente em tratamento oncológico e que ainda queira manter uma vida sexual ativa, mas não é impossível. O importante é ter a resiliência necessária para passar por esse turbilhão de questões nessa fase, principalmente no âmbito sexual.


Conversei com a doutora Ana Faria, ginecologista e mastologista, da clínica Ava, especializada na saúde da mulher, sobre esse assunto tão desafiador para as pacientes oncológicas: a saúde sexual.


Quais os principais desafios sexuais ligados a questões ginecológicas que a mulher enfrenta quando se é paciente em tratamento de câncer de mama?

Os principais desafios são o ressecamento vaginal, a dor na relação e as mudanças no desejo e na resposta sexual. Eles podem aparecer juntos e se alimentar mutuamente, com intensidade diferente para cada mulher.


Como a menopausa influencia?

Um dos problemas mais importantes é a síndrome geniturinária da menopausa, que pode ser desencadeada ou agravada pelo tratamento do câncer de mama. A quimioterapia pode comprometer o funcionamento dos ovários, e alguns tratamentos hormonais reduzem intensamente a produção ou bloqueiam a ação do estrogênio. Com isso, os tecidos da vulva e da vagina podem ficar mais finos, menos elásticos e menos lubrificados. A mulher pode sentir secura, ardência, irritação e dor durante a penetração e, em alguns casos, desconforto mesmo fora da relação. Também podem ocorrer sintomas urinários, como urgência, ardor e infecções urinárias recorrentes.


E quem ainda não entrou na menopausa e passa pelo câncer de mama?

Nas mulheres que ainda não estão na menopausa, essa mudança pode ser especialmente difícil porque acontece de maneira abrupta. Em pouco tempo, elas precisam lidar com os efeitos do tratamento, possíveis repercussões sobre a fertilidade e mudanças na vida íntima.


Quais outras dificuldades?

Outro desafio é a redução do desejo, da excitação e da facilidade de chegar ao orgasmo. Isso não depende apenas dos hormônios: fadiga, sofrimento emocional, alterações na imagem corporal e questões do relacionamento também podem interferir. Quando a experiência sexual passa a provocar dor, surge ainda o medo de sentir dor novamente, que pode levar à contração involuntária da musculatura do assoalho pélvico e ao afastamento da intimidade.  Por isso, cuidar do desejo exige também investigar e tratar o desconforto físico. Esses sintomas podem persistir depois do término do tratamento oncológico. Não é possível presumir que a sexualidade vá se recuperar espontaneamente com o passar do tempo.


Como tratar?

A saúde sexual precisa fazer parte do cuidado oncológico desde o início. Existem recursos para aliviar os sintomas, como hidratantes e lubrificantes vaginais, fisioterapia pélvica e acompanhamento psicológico ou terapia sexual, conforme a necessidade. Outras opções exigem avaliação individualizada e uma decisão compartilhada entre a mulher, o ginecologista e a equipe oncológica. A paciente precisa saber que pode falar sobre isso e receber cuidado, sem pressão para retomar a atividade sexual e sem precisar suportar dor. Quer deixar um conselho para quem está passando por essa fase?Existe uma barreira menos visível: o silêncio. Algumas mulheres sentem vergonha de falar, outras acreditam que precisam aceitar essas mudanças como uma consequência inevitável do tratamento. E nem sempre a equipe de saúde pergunta. O medo de que qualquer tratamento ginecológico possa aumentar o risco de o câncer voltar também pode afastá-las da busca por ajuda. Fale, pergunte, saiba que há alternativas para amenizar os problemas nesta fase.


*Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.



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