Será que cansamos dos aplicativos de namoro?
Depois de anos transformando encontros em uma sequência de fotos, filtros e “matches”, o encontro parece entrar em uma nova fase: menos swipe, mais vida real.

Durante anos, encontrar alguém pela internet pareceu a maneira mais prática de ampliar as possibilidades amorosas. Bastava criar um perfil, escolher algumas fotos, escrever uma frase espirituosa e começar a deslizar o dedo pela tela. O amor, pelo menos em teoria, estava a alguns swipes de distância. Agora, porém, essa promessa começa a perder força. Aplicativos de relacionamento continuam fazendo parte da vida amorosa de milhões de pessoas, mas os sinais de cansaço em relação ao modelo são cada vez mais evidentes.
Dados recentes mostram uma desaceleração do setor. Em 2025, as instalações globais de aplicativos de relacionamento caíram 4%, enquanto o número de sessões diminuiu 7%, segundo levantamento da Adjust. O tempo médio de cada sessão também recuou, de 13,21 minutos em 2024 para 11,49 minutos em 2025. Empresas do setor também vêm registrando redução no número de usuários pagantes. Mas talvez a questão mais interessante não seja se os aplicativos estão “morrendo”. É entender do que as pessoas estão cansadas.
O problema pode estar menos na tecnologia e mais na transformação do encontro amoroso em uma espécie de catálogo infinito. A lógica do swipe nos acostumou a avaliar pessoas em segundos: uma fotografia, uma profissão, uma frase na bio, alguns interesses em comum. Se não houver uma atração imediata, basta deslizar para o próximo perfil. E então para o próximo. E para o próximo.
A possibilidade de escolha, que inicialmente parecia libertadora, pode também produzir exaustão. Quando existem centenas de possibilidades disponíveis, qualquer pessoa pode parecer substituível. Um primeiro encontro que antigamente poderia despertar curiosidade passa a ser submetido a uma comparação silenciosa com todos os outros potenciais candidatos que continuam esperando na tela.
É uma mudança importante na experiência emocional de conhecer alguém. Fora dos aplicativos, a atração nem sempre acontece de maneira instantânea. Ela pode surgir depois de uma conversa, de uma piada, de um jeito de olhar, de uma inteligência que não aparece em uma fotografia. No mundo real, existe espaço para a personalidade aparecer antes que uma decisão seja tomada.
Não por acaso, o movimento de afastamento dos aplicativos vem acompanhado por uma retomada dos encontros presenciais. Especialistas têm observado um interesse crescente em conhecer pessoas por meio de amigos, atividades, eventos, aulas e situações sociais. Até as próprias empresas do setor começaram a olhar para experiências offline como uma maneira de reconstruir o interesse e a sensação de comunidade em torno do namoro.
Isso não significa que as pessoas tenham desistido da tecnologia ou que voltar ao flerte “à moda antiga” seja necessariamente melhor. Os aplicativos continuam sendo uma ferramenta importante, especialmente para quem tem uma rotina corrida, vive em uma cidade grande, pertence a grupos sociais menores ou deseja conhecer pessoas fora do próprio círculo. A transformação parece ser outra: o aplicativo deixa de ser o lugar onde o namoro acontece e passa a ser apenas uma das portas de entrada para ele.
Essa mudança também pode ser uma oportunidade para recuperar uma habilidade que o excesso de tecnologia deixou um pouco enferrujada: a de demonstrar interesse sem garantias. Curtir alguém em um aplicativo é relativamente seguro. Você sabe que aquela pessoa está ali com alguma abertura para conhecer alguém. Na vida real, existe a possibilidade de não ser correspondido. É justamente essa incerteza que torna o flerte mais vivo e também mais difícil.
Para muitas mulheres, essa retomada do contato presencial pode significar reaprender a ocupar espaços sem necessariamente sair em busca de um relacionamento. Fazer uma aula porque gosta do assunto, aceitar um convite para jantar com amigos, frequentar um bar novo, viajar, conversar com desconhecidos, participar de atividades coletivas. O objetivo não precisa ser “encontrar alguém”. Pode ser simplesmente aumentar a própria vida.
E talvez esse seja o ponto central dessa nova fase do namoro: quando a busca por um parceiro deixa de ocupar todo o espaço, a possibilidade de conhecer alguém pode surgir de maneira menos planejada.
O futuro dos relacionamentos provavelmente não será totalmente offline nem totalmente digital. Aplicativos ainda podem aproximar pessoas que jamais se encontrariam. Mas a experiência amorosa parece pedir algo que nenhum algoritmo consegue oferecer sozinho: tempo para descobrir quem está do outro lado da tela.
Depois de uma década em que o amor foi reduzido a uma sucessão de escolhas rápidas, talvez estejamos entrando na era da curiosidade. Menos “será que existe alguém melhor a dois swipes daqui?” e mais “o que será que existe nesta pessoa que ainda não descobri?”.
Porque, no fim, conhecer alguém não é exatamente encontrar o perfil perfeito. É descobrir se existe uma história possível depois que a tela se apaga.
*Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.



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