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Você já sentiu a limerência?

  • há 13 horas
  • 3 min de leitura

O excesso de informação, a espera por sinais e a possibilidade de acompanhar cada passo de alguém podem transformar uma paixão em um ciclo difícil de interromper


Você conhece aquela sensação de pensar em uma pessoa o tempo todo? De abrir o Instagram “só para dar uma olhadinha”, conferir quem curtiu uma publicação, interpretar uma visualização nos Stories ou tentar descobrir por que aquela mensagem ainda não foi respondida? Quando o interesse amoroso começa a ocupar espaço demais na cabeça, talvez não seja apenas uma paixão intensa. Pode ser limerência, um estado de intensa fixação romântica que ganhou uma espécie de combustível extra na era das redes sociais.

O termo foi criado pela psicóloga Dorothy Tennov, nos anos 1970, para descrever uma forma de paixão marcada por pensamentos recorrentes sobre determinada pessoa, fantasias, desejo intenso de reciprocidade e uma forte dependência emocional dos sinais do outro. Hoje, o conceito ganhou popularidade justamente porque encontrou nas redes sociais um ambiente perfeito para se desenvolver. Segundo reportagem publicada pelo Washington Post, as buscas pelo termo “limerence” cresceram 500% nos últimos cinco anos, enquanto hashtags relacionadas ao assunto acumulam milhares de publicações no TikTok e no Instagram.

O algoritmo do desejo

O problema não é simplesmente estar interessada em alguém. Afinal, pensar muito em uma pessoa no início de uma paixão é absolutamente comum. A questão é quando a expectativa começa a controlar o humor, a rotina e até a autoestima.

As redes sociais tornam isso especialmente fácil. Antes, quando alguém despertava nosso interesse, havia um intervalo natural entre os encontros. Hoje, podemos acompanhar fotos, viagens, amigos, família, lugares frequentados e até pequenas atividades cotidianas em tempo real. Essa abundância de informações, porém, não necessariamente traz clareza. Muitas vezes, produz o efeito contrário: quanto mais sabemos, mais tentamos interpretar.

Um Story visualizado pode virar uma pista. Uma curtida pode parecer uma declaração. A ausência de uma curtida pode ser interpretada como rejeição. Uma pessoa que aparece online, mas não responde, pode desencadear uma investigação mental que dura horas.E é justamente essa combinação de informação e incerteza que pode alimentar a fixação.

Quando a fantasia começa a ocupar o lugar da realidade

Outro elemento importante da limerência é que ela pode se desenvolver mesmo quando existe pouca intimidade real entre duas pessoas. Você pode conhecer alguém relativamente pouco e, ainda assim, construir uma história inteira na cabeça. A partir de algumas conversas, uma troca de olhares ou determinados comportamentos nas redes, o cérebro começa a preencher as lacunas. É aí que nasce uma versão imaginária do relacionamento.

Você não está necessariamente apaixonada pela pessoa que conhece, mas também pela pessoa que imagina que ela possa ser. E quanto menos informações concretas existem sobre a relação, maior pode ser o espaço para a fantasia.

Por isso, a limerência não depende necessariamente de uma relação correspondida. Ela pode surgir justamente diante da incerteza: “Será que ele gosta de mim?”, “Por que ela fez isso?”, “Será que aquele Story foi para mim?”, “E se ele estiver com medo de se envolver?”. A pergunta sem resposta mantém a expectativa viva. O resultado é um ciclo: espera, checagem, pequena recompensa, nova expectativa e novamente espera.

Como recuperar o espaço mental

O primeiro passo é perceber o ciclo sem se julgar. Ter limerência não significa ser “carente”, “fraca” ou incapaz de amar. Significa que determinado vínculo imaginado ganhou uma intensidade que pode estar ultrapassando aquilo que efetivamente existe entre duas pessoas.Depois, vale reduzir os estímulos que mantêm a obsessão funcionando.

Isso pode significar silenciar Stories, deixar de visitar o perfil, evitar procurar informações sobre a pessoa, diminuir a frequência das conversas ou estabelecer períodos sem contato digital. Não se trata de fazer um jogo para provocar saudade no outro, mas de interromper a alimentação constante da fantasia.

Também ajuda fazer uma pergunta simples: o que eu realmente sei sobre essa pessoa e o que estou imaginando? Colocar esses dois universos lado a lado pode ser revelador. Porque, no fim, talvez o maior perigo das redes sociais para a vida amorosa não seja aproximar pessoas demais. É nos dar informação suficiente para alimentar uma fantasia, mas informação de menos para realmente saber o que está acontecendo.

E quando o amor precisa ser investigado como um detetive digital, talvez seja hora de sair da tela e voltar para a realidade onde relações verdadeiras ainda dependem de conversa, presença, reciprocidade e escolhas concretas. *Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.


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