Regina Navarro Lins discute as principais dúvidas sobre relacionamentos


Em 10 episódios, a célebre psicanalista e escritora discorre sobre o amor romântico, ciúme, sexo no casamento, fidelidade, machismo, orientação sexual, entre outros temas na plataforma Storytel.



Resumir em 10 episódios os principais temas atuais sobre relacionamentos não é uma tarefa fácil. Ainda mais para uma profissional com mais de 40 anos de consultório. Imagina quantas horas de dilemas ouvidos e solucionados? A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins aceitou o desafio e organizou em capítulos para a Storytel, serviço de streaming de audiobooks e e-books, assuntos como "a mulher ainda busca do príncipe encantado?”, "a exclusividade no sexo é fundamental ara ma relação?”, "ciúme faz parte do amor?”, "casamento: onde menos se faz sexo”, "dor e renascimento na separação”, "repressão sexual”, "vida a dois: sedução e conquista”, entre outros. Na quinta-feira (5/11), ela também lança o livro "Amor na Vitrine - Um olhar sobre as relações amorosas contemporâneas”, com transmissão às 20h nos perfis de Instagram @reginanavarrolins e @livrariadatravessa.

Confira a seguir nossa conversa:

Vogue: Como foi a escolha de temas? Regina Navarro Lins: A minha intenção é sempre atingir os grandes públicos. Não tenho dúvida de que as pessoas podem viver o amor e o sexo bem melhor do que elas vivem. Tenho consultório há 47 anos, tive artigos em vários jornais, recebo muitas mensagens e com isso vou percebendo o que as pessoas estão precisando discutir mais.

Vogue: Qual a principal questão?

Regina Navarro Lins: O amor romântico que povoa as mentalidades do Ocidente e que felizmente está dando sinais de sair de cena. Critico esse tipo de amor e muitas pessoas acham que eu critico o amor. Não é isso. O amor é uma construção social e a cada período se mostra de uma forma.

Vogue: Como é o amor historicamente?

Regina Navarro Lins: Estamos vivendo esse amor romântico de 1940 pra cá. Na verdade, ele surgiu no século 12 mas nunca pôde entrar no casamento por questões políticas e financeiras. O amor romântico veio à margem do casamento. Quando chegou no século 19, passou a ser uma possibilidade, mas a maioria continuou com casamentos arranjados, era ainda preciso colocar o amor. E nos anos 1940, ele começou a existir junto com as uniões.

Vogue: Por que a crítica ao amor romântico?

Regina Navarro Lins: Eu critico porque gera muito sofrimento. É calcado na idealização, a pessoa atribui aspectos de personalidade no outro que não existem no dia a dia. É impossível e você se ressente. Você atribui o que quer e no cotidiano observa aspectos que não admira. O amor romântico traz expectativas prejudiciais, a ideia de que os dois vão se transformar num só. E isso aniquila as individualidades. Sendo que respeitar a individualidade é fundamental. O amor romântico prega isso: que você vai ter as necessidades atendidas pelo outro. Qualquer coisa só tem sentido se o amado estiver junto. E tem outro ponto. A mentira gera sofrimento: "quem ama não tem desejo por mais ninguém". "Não transaria com mais ninguém”. Aí se a pessoa descobre que o amado transa com mais alguém, acaba acreditando que não é amada.

Vogue: Mas isso está começando a mudar, não?

Regina Navarro Lins: O amor romântico está dando sinais de que está saindo de cena porque todo mundo quer desenvolver seu potencial e o amor romântico prega a não individualidade. E, ao sair de cena, tira a exigência da exclusividade abrindo espaço para outras formas de amor como relações livres, poliamor. Dentro de algumas décadas, menos pessoas vão querer se fechar nessas relações. Fiz questão de tocar no assunto amor romântico para mostrar o quanto é importante desconstruir isso. Não tem problema em mandar flores, o problema é a expectativa desse amor.

Vogue: É o dilema monogamia x não-monogamia.

Regina Navarro Lins: Isso faz parte do amor romântico. Hoje sinto que as pessoas estão discutindo muito sobre a monogamia. Vejo muito isso nas redes sociais: "o combinado não sai caro". Mas, no fundo, a gente não combina nada. Tem até uma pesquisa da universidade de Michigan que mostra que as pessoas colocam inconscientemente a monogamia como superior. O posicionamento cultural é muito forte desde que a gente nasce.

Vogue: Outro tema que você discute é "casamento: onde menos se faz sexo”?

Regina Navarro Lins: É verdade isso. Peço para as pessoas mandarem questões durante a semana e vem coisas assim: “o que eu digo pro meu marido que eu quero abrir a relação? Eu o amo, não quero me separar, só não quero mais fazer sexo com ele.” Casamento é um modelo de possessividade e controle. Acho que o mínimo de insegurança é necessário para o tesão continuar existindo. As pessoas esperam que na terapia a gente dê uma solução. Mas não existe.

Na maioria dos casos, é a mulher que perde o tesão pelo marido. Temos que começar a refletir sobre as crenças e valores aprendidos. As pessoas aprendem desde cedo que precisam ter um par amoroso para viver bem e feliz. Quem é o escolhido não importa tanto, o que importa é ter alguém. Você se apaixona pela paixão, pela sensação de precisar sempre estar apaixonado. As pessoas podem viver muito melhor do que elas vivem hoje.

Vogue: Como você está vendo as relações na pandemia?

Regina Navarro Lins: Existem casais em home office. E recebi de uma mulher: "Estou sufocada. Eu saía de manhã pra trabalhar, tomávamos um café rápido. Agora são 24h por dia juntos. Eu não aguento mais. Ele quer saber quanto tempo vou demorar, todo um controle". Se fora da pandemia não existia um respeito à individualidade, imagina 24h por dia lado a lado. Hoje em dia, as pessoas que perceberem a importância da individualidade do outro já será uma grande coisa. Não dá pra conviver a dois sem respeito e individualidade. Vamos precisar de um tempo pra avaliar o que a pandemia realmente causou nas relações amorosas.


Texto originalmente publicado para o site da Vogue Brasil.



Encontre a Lu também nas redes sociais

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle